Taxonomia das Doenças: da filosofia clássica à Medicina
Alfred Garrod, ao identificar a "gota astênica", exemplifica a evolução da taxonomia médica, onde a observação clínica permite classificar doenças. Baseando-se na lógica aristotélica, a definição médica agrupa e separa patologias, fundamental para o diagnóstico e tratamento eficaz.
Autor: Carlos Antonio Moura
Data: 21 de agosto de 2026
Alfred Garrod, célebre por descobrir o papel do ácido úrico na gota — a chamada “doença dos reis” —, começou a notar um grupo de pacientes que apresentava um quadro semelhante ao reumatismo, mas com peculiaridades distintas. Não era a gota clássica pois não acometia majoritariamente homens nobres e corpulentos, mas mulheres com uma evolução mais “astênica”, ou seja, arrastada. Daí usualmente chamada de “gota astênica”.
Ao perceber esse fenótipo distinto dentro do amplo espectro do chamado “reumatismo”, Garrod propôs o nome “reumatoide” — ou seja, “parece com o reumatismo”. Parece, mas não é, diria a sabedoria popular. Assim nasceu um dos diagnósticos mais conhecidos e estudados da reumatologia. Esse episódio ilustra a natureza perene e contínua do grande ato médico que é fenotipar sinais, sintomas, síndromes e doenças. Desde os primórdios da medicina, o avanço do diagnóstico sempre se deu pela capacidade do clínico de observar, distinguir, classificar e hierarquizar — não apenas de repetir fórmulas aprendidas, mas de perceber nuances, identificar padrões, estabelecer diferenças.É justamente disso que se trata a taxonomia das doenças: a arte e a ciência de classificar os fenômenos mórbidos segundo uma hierarquia lógica, ordenada, que permita ao médico compreender, comunicar e tratar. Para tanto é fundamental entender como se define algo.
Para tanto, recorramos a Aristóteles, o pai do método científico; o pai da lógica. Para ele, definir é enunciar a essência da coisa a ser definida e, para tanto, ele apela para dois elementos: o gênero próximo e a diferença específica. Por exemplo, ao definirmos o homem enquanto animal racional afirmamos que o homem pertence ao gênero dos animais e, dentro deste gênero se diferencia pela racionalidade. Um exemplo médico seria a definição de DPOC, ou seja, uma Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica não reversível espirometricamente ao uso de broncodilatador. O gênero das doenças obstrutivas compartilha semelhanças entre si (ex. asma, DPOC), mas a diferença específica da reversão ao broncodilatador separa estas patologias.
Deste modo, a definição é feita em dois tempos: primeiro agrupa e depois separa. Agrupa pelas similaridades e separa pelas diferenças.
Se você estiver acompanhando o Blog e a série Medicina e Filosofia – e mais ainda, se for aluno assíduo do CORC e do Curso de Introdução Geral à Medicina – perceberá que há aí a arte de enxergar a Unidade na Diversidade e vice versa, texto publicado neste Blog há alguns meses.
Agora atente-se a um detalhe importante: como todo gênero próximo é ele mesmo espécie de um gênero superior (por exemplo, o homem é animal tal qual um cachorro, mas enquanto animal ele se diferencia de uma pedra), a operação se repete em degraus sucessivos, do mais geral ao mais particular, até se alcançar a espécie ínfima — aquela que já não admite nova divisão, porque abaixo dela restam apenas os indivíduos. É exatamente essa estrutura que qualquer taxonomia, inclusive a das doenças, precisa reproduzir para ser algo mais que uma lista.
Essa prática — fundamental na medicina — está intimamente ligada a conceitos filosóficos clássicos que, infelizmente, muitos profissionais desconhecem. Refiro-me à Árvore de Porfírio, que hierarquiza os seres segundo níveis de gênero e espécie, e às Causas Aristotélicas, que explicam a constituição dos entes através de quatro dimensões: causa material, formal, eficiente e final.Ao estudar e classificar doenças, fazemos exatamente isso: perguntamos “o que é?”, “do que é feita?”, “como se manifesta?” e “qual seu curso?”.Assim, a tão celebrada Medicina de Precisão, que hoje busca subfenotipar doenças a nível molecular e genético, não é, como muitos pensam, uma revolução. Ela é, antes, uma reprodução da epistemologia médica tal qual ensinada por Aristóteles: a busca pela definição precisa da essência das coisas, pela determinação das formas, pela apreensão dos graus hierárquicos que existem entre o universal e o particular.A moderna medicina genômica apenas transportou o olhar clínico para camadas mais profundas da realidade biológica, sem, contudo, abolir a necessidade do raciocínio clínico tradicional que opera não apenas com sinais e sintomas, mas com resultado de exames e dados científicos.É por isso que considero ingênua a pretensão de alguns que juram que a Medicina de Precisão acabará por suplantar a Medicina Baseada em Evidências (MBE). Não porque uma seja melhor ou mais científica do que a outra, mas porque ambas são complementares e, de certa forma, inseparáveis.A MBE se apoia na análise de grupos, populações, amostras — mas o que poucos percebem é que tais grupos são, em alguma medida, já fenotipados. Os critérios de inclusão e exclusão, as variáveis controladas, os desfechos analisados, tudo isso pressupõe uma taxonomia prévia, uma categorização fenotípica que torna possível a comparação e a generalização.Por outro lado, a Medicina de Precisão não é nada além de uma fenotipagem mais refinada, molecular, que busca subcategorias ainda mais específicas dentro dos grupos clássicos.Ambas são métodos. E, como todo método, não podem ser valorados por si mesmos, mas apenas pela adequação ao fim a que se destinam. E qual é esse fim? O bem da pessoa concreta que está diante de nós — uma pessoa que não se dissolve em meio a amostragens populacionais, mas também não se reduz em um amontoado de células e moléculas.Esse paciente concreto é mais do que um número na estatística e mais do que um perfil molecular: é uma pessoa, indivisível, de corpo e alma.Por isso, insisto: a taxonomia das doenças é indispensável, mas deve sempre ser acompanhada do reconhecimento da singularidade do ser humano. O ideal médico não é apenas classificar corretamente a doença, mas subfenotipa-la com a maior precisão possível, enquanto se reconhece que o paciente é único e irrepetível.Mais do que um “homo sapiens”, cada paciente é uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus — uma realidade ontológica que transcende qualquer taxonomia, por mais sofisticada que seja. Eis o fundamento ontológico que deve prescrever qualquer epistemologia. A ciência, assim entendida, resgata sua verdadeira finalidade: buscar a verdade reconhecendo seu reflexo na matéria que ela estuda.É exatamente sobre esse tema que aprofundo a reflexão no meu próximo livro,, a ser lançado em breve. Nele, exploro como as grandes tradições filosóficas podem iluminar a prática diagnóstica, ajudando-nos a superar a despersonalização imposta tanto por aqueles que reduzem o ser humano a um mero conjunto de processos biológicos, quanto por quem o enxerga apenas como partes de um teorema algébrico.
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!
Faça login para deixar um comentário.
Entrar